sábado, 10 de março de 2012

Natureza



As árvores da minha cidade eram gomos tingidos por um verde impertinente, onde se viam pelos suaves túneis de luz pequenos ramos desabotoados de ventura. Suas folhas agitavam-se como rabiolas no ar e nos galhos mais altos, em plena primavera, cachos de frutos maduros desabrochavam de noite, quando queriam namorar as estrelas cintilantes do cruzeiro do sul.

O mundo, em sua audaciosa maravilha, revolvia poses majestosas e não permitia, sob nenhum festejo, que lhes acendessem fogos de artifício, então elas podiam respirar livremente e todos, mulheres, jovens, velhos e crianças, podiam idolatrar sua esplêndida paisagem.

Ficava decretado pela humanidade que viver era aspirar o doce perfume que exalava às seis da manhã, em qualquer fuso horário do planeta, mas em minha cidade, perto da minha rua, deixávamos que o nosso maior abandono fosse apreciar esse grande crepúsculo da natureza. Que saudades tenho eu desse espetáculo agora manchado por um estranho sumo, que corrói os troncos outrora imponentes diante de uma energia cósmica pura e sagrada.

É com enorme pesar que retorno à árvore de minha infância e constato esse flagelo, tão doente, tão franzina e coberta de folhas secas, entrecortada por soluços. Observo impotente o choro agonizante de seus braços pendidos no chão, implorando que alguém tome consciência e respeito por sua história, honre seu passado de glória, cuja sombra serviu de refúgio aos namorados, abrigo da chuva, repouso das borboletas, alimento para os passarinhos.

A mãe floresta derrama um pranto inconsolável pela exploração de suas reservas, o aquecimento de seu solo, a derrubada de árvores milenares como a da minha infância, assim como meu coração se encontra tão devastado quanto suas raízes e espécies de muitas gerações. Nós duas, eu e minha árvore amiga, choramos a morte do mundo.

E em que mundo haverei de acordar ainda chorando, já que nem consigo mais olhar pra trás e ver o que já fui um dia; tenho hoje as mãos cansadas, quase paradas e suspensas de tanto dizerem adeus, mãos que se erguem e que se debruçam no tempo em que as lágrimas ficam contidas ou sustentando um pranto que teima em me fazer companhia, na hora em que é preciso partir, não sem dor, não sem o amargo da saudade, não sem acreditar que dessa vez pode ser para sempre.



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