Eu me
recordo, ainda, daquele dia em que trocávamos a vida pacata do interior do Pará
pela capital. A areia macia em que brincávamos com os pés descalços era
substituída por um asfalto quente, onde a atmosfera era muito sombria. De tudo
ficava um pouco em nós; a saudade dos amigos, a goiabeira da vizinha, os
passarinhos que enchiam de imundícies a nosa janela, o homem que trazia o leite
e, até mesmo, as velhas senhoras que olhavam pelas persianas e se punham na
porta, quando ouviam uma discussão.
Contudo,
precisamos de partir da terra em que vivíamos e que presenciara os primeiros
momentos da minha infância. Meu pai fora transferido, com maiores chances e melhor
nível de vida. Mas a partida é difícil, sempre é difícil quando a terra que
estamos deixando já plantou sementes, ainda que pequenas, em nossa alma. Eu me
sentia como as folhas caindo das árvores, certa de que voltaria muitas vezes,
porém nunca mais seria da mesma maneira.
É muito
triste deixarmos o pedacinho de chão em que depositamos bobas esperanças e
lançarmo-nos ao desconhecido; tinha medo de tudo o que era misterioso ou do que
ainda estava por vir. Assim partimos, impulsionados por uma força maior;
lembro-me que viemos de caminhão, trazendo os móveis; e foi uma experiência que
marcou tanto a minha vida que, agora, consigo reconstituir na memória cada
segundo daquele dia, desde a saída definitiva, as lágrimas, a dor que machuca,
até a chegada em nossa nova residência, e o início de outras experiências que
ficariam registradas em minha adolescência.
Ainda
hoje, quando lá retorno, sinto que algo de muito belo e de essencial ficou ali,
naquela casa, cuja fachada em nada mudou. Nunca me esquecerei do lugar onde
aprendi a dar valor às coisas verdadeiramente simples e de onde saí, com a
sensação estranha de que, realmente, partir é morrer um pouco.

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